Não sei o que sinto.
Já tentei iniciar este texto umas três ou quatro vezes, mas tudo
parece tão errado na maneira de começar.
Aquilo que sinto, nem eu sei explicar. Sinto um vazio enorme e uma
vontade enorme de escrever, mas sem saber o que escrever.
Apetece-me escrever poesia, negra e fria, cheia de dor e tristeza. Mas
para quê? Nunca tive grande jeito para poesias. Se gosto de poesia? Sim, muito,
mas nunca fui poeta. Também não admira que nunca tenha tido jeito para a
poesia, pois nunca tenho jeito para aquilo de que gosto. Mas para quê escrever
e ocultar nas palavras a dor ou a alegria que sinto, a saudade ou a presença se
ninguém compreenderia? É preciso nascer-se poeta. Um poeta não se faz, um
cantor não se cria, um pintor não se molda. Nasce-se assim. De nada vale
dizer-se que não é verdade, porque todos o sabemos que quem não nasce com esse
dote nunca o adquire. Uns nascem com tendência para a música, outros para a
poesia; uns para a pintura, outros para o desenho. Uns para a fama e outros para
a popularidade. Há ainda uns outros que nascem como eu: com vontade de muita
coisa e sem jeito para nada.
Divago pelo mundo, sozinho e solitário. Os pássaros voam no alto céu,
em bandos. Esses não conhecem a solidão. Os peixes nadam no mar, em cardumes.
Esses também não conhecem a solidão. As gazelas correm pelos prados, em grupo.
Essas também não conhecem a solidão. Mas o homem, que anda ou não em grupo, em
bando ou em cardume, conhece a solidão. Triste homem que te sentes só. Mas para
quê generalizar? Não sou só eu que me sinto só? Bem, talvez sim, talvez não.
Mas que dizer? Que só um vazio mora dentro de mim.
Quem dorme à noite comigo é meu segredo, mas se insistirem lhes digo:
o vazio.
Mas é a vulgaridade da vida que me faz sentir assim.
Não, não vale a pena esconder a lágrima que cai. Não sei porque choro.
Não sei porque chora o homem. Também não sei muita coisa. Mas como compreender
o homem? Porque chora o homem? De dor? De saudade? Pelo vazio? Pela ausência? De
alegria? De júbilo? De recordação? Não sei. São mais a interrogações que as
respostas. Mas deixai-me chorar. Deixai-me chorar por aquilo que me falta, por
aquilo que sinto ou por aquilo que perdi e só na recordação reside. Deixai-me
chorar por algo ou por nada. Deixai-me chorar um pouco. Ou até chorar de mais.
Muitas vezes ouvi dizer que a lágrima era a palavra não dita. Pois bem,
deixai-me chorar por todas as palavras que devia ter dito, por todas as frases
que deveria ter formulado, por todos os pensamentos forçados a serem apenas
pensamentos. Deixai-me chorar por mim, por aqueles que deixaram um lugar vazio
e por todos aqueles que ainda cá estão. Deixai-me desabafar pelas lágrimas.
Como é tão facilmente o homem obrigado a reprimir tudo isto dentro de
si, a acumular sem poder exteriorizar somente porque os outros pensam isto,
aquilo ou por sabe-se lá o quê! É sempre mais importante o que exteriorizamos
do que aquilo que sentimos. Ah, malditos estereótipos que nos fazem reagir
assim! O homem não chora. Pois bem, se eu não poder derramar as minhas lágrimas,
não quero ser homem.
Perdi em muito por todos estes estereótipos. Deixei de ser, passei a
não ser.
Queria ser livre, mas sempre estive preso. Queria ser livre, mas nunca
pude voar. Queria ser livre, mas nunca pude nadar. Queria tanta coisa, mas
nunca pude. Tudo por causa destes malditos estereótipos que nos são postos
automaticamente, sem que nos apercebamos disso.
Mas não ligues. Isto são só palavras de um louco, perdido num mundo
desconhecido. São só pedaços de um sonho há muito esquecido, recordado,
esquecido e recordado. Pois há certas coisas que muito facilmente se esquecem. Outras
que muito facilmente se lembram. E eu, um louco num mundo desconhecido, que
sempre lembra e nunca esquece. Nunca esquece e sempre lembra de tudo aquilo
porque passou, por tudo aquilo que viveu. E essas recordações fazem sorrir e
fazem chorar. E essas recordações trazem calma e inquietação. E essas
recordações trazem alegria e dor. Mas que importa? São só recordações minhas e
não de mais ninguém. Porque mais ninguém recorda, lembra, revive.
Mas ri-te. Ri-te de mim e destas palavras, já não me importa. Só eu
sou o louco que continua a acreditar, num acreditar infinito…
Ad majorem Dei gloriam!
Ismael Sousa
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