segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Salvos na Esperança (Spe Salvi)

Acabei de ler há pouco tempo a segunda Encíclica do Papa Bento XVI.
Ainda que toda a encíclica seja maravilhosa, gostaria de postar a parte que mais me tocou na sua encíclica!
É maravilhoso como sua Santidade, o Papa Bento XVI, demonstra o amor de Maria.

50. Por isso, a Ela nos dirigimos: Santa Maria, Vós pertencíeis àquelas almas humildes e grandes de Israel que, como Simeão, esperavam « a consolação de Israel » (Lc 2,25) e, como Ana, aguardavam a « libertação de Jerusalém » (Lc 2,38). Vós vivíeis em íntimo contacto com as Sagradas Escrituras de Israel, que falavam da esperança, da promessa feita a Abraão e à sua descendência (cf. Lc 1,55). Assim, compreendemos o santo temor que Vos invadiu, quando o anjo do Senhor entrou nos vossos aposentos e Vos disse que daríeis à luz Àquele que era a esperança de Israel e o esperado do mundo. Por meio de Vós, através do vosso « sim », a esperança dos milénios havia de se tornar realidade, entrar neste mundo e na sua história. Vós Vos inclinastes diante da grandeza desta missão e dissestes « sim ». « Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra » (Lc 1,38). Quando, cheia de santa alegria, atravessastes apressadamente os montes da Judeia para encontrar a vossa parente Isabel, tornastes-Vos a imagem da futura Igreja, que no seu seio, leva a esperança do mundo através dos montes da história. Mas, a par da alegria que difundistes pelos séculos, com as palavras e com o cântico do vosso Magnificat, conhecíeis também as obscuras afirmações dos profetas sobre o sofrimento do servo de Deus neste mundo. Sobre o nascimento no presépio de Belém brilhou o esplendor dos anjos que traziam a boa nova aos pastores, mas, ao mesmo tempo, a pobreza de Deus neste mundo era demasiado palpável. O velho Simeão falou-Vos da espada que atravessaria o vosso coração (cf. Lc 2,35), do sinal de contradição que vosso Filho haveria de ser neste mundo. Depois, quando iniciou a actividade pública de Jesus, tivestes de Vos pôr de lado, para que pudesse crescer a nova família, para cuja constituição Ele viera e que deveria desenvolver-se com a contribuição daqueles que tivessem ouvido e observado a sua palavra (cf. Lc 11,27s). Apesar de toda a grandeza e alegria do primeiro início da actividade de Jesus, Vós, já na Sinagoga de Nazaré, tivestes de experimentar a verdade da palavra sobre o « sinal de contradição » (cf. Lc 4,28s). Assim, vistes o crescente poder da hostilidade e da rejeição que se ia progressivamente afirmando à volta de Jesus até à hora da cruz, quando tivestes de ver o Salvador do mundo, o herdeiro de David, o Filho de Deus morrer como um falido, exposto ao escárnio, entre os malfeitores. Acolhestes então a palavra: « Mulher, eis aí o teu filho » (Jo 19,26). Da cruz, recebestes uma nova missão. A partir da cruz ficastes mãe de uma maneira nova: mãe de todos aqueles que querem acreditar no vosso Filho Jesus e segui-Lo. A espada da dor trespassou o vosso coração. Tinha morrido a esperança? Ficou o mundo definitivamente sem luz, a vida sem objectivo? Naquela hora, provavelmente, no vosso íntimo tereis ouvido novamente a palavra com que o anjo tinha respondido ao vosso temor no instante da anunciação: « Não temas, Maria! » (Lc 1,30). Quantas vezes o Senhor, o vosso Filho, dissera a mesma coisa aos seus discípulos: Não temais! Na noite do Gólgota, Vós ouvistes outra vez esta palavra. Aos seus discípulos, antes da hora da traição, Ele tinha dito: « Tende confiança! Eu venci o mundo » (Jo 16,33). « Não se turve o vosso coração, nem se atemorize » (Jo 14,27). « Não temas, Maria! » Na hora de Nazaré, o anjo também Vos tinha dito: « O seu reinado não terá fim » (Lc 1,33). Teria talvez terminado antes de começar? Não; junto da cruz, na base da palavra mesma de Jesus, Vós tornastes-Vos mãe dos crentes. Nesta fé que, inclusive na escuridão do Sábado Santo, era certeza da esperança, caminhastes para a manhã de Páscoa. A alegria da ressurreição tocou o vosso coração e uniu-Vos de um novo modo aos discípulos, destinados a tornar-se família de Jesus mediante a fé. Assim Vós estivestes no meio da comunidade dos crentes, que, nos dias após a Ascensão, rezavam unanimemente pedindo o dom do Espírito Santo (cf. Act1,14) e o receberam no dia de Pentecostes. O « reino » de Jesus era diferente daquele que os homens tinham podido imaginar. Este « reino » iniciava naquela hora e nunca mais teria fim. Assim, Vós permaneceis no meio dos discípulos como a sua Mãe, como Mãe da esperança. Santa Maria, Mãe de Deus, Mãe nossa, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela do mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho!

Penso que seja um optimo ponto para repensarmos o nosso amor por Maria!

Ismael Sousa 

domingo, 21 de novembro de 2010

Em ti há sete torres...

Olho pela janela e tudo o que vejo é a cidade. Tudo o que está para além da quarta torre parece não existir.
O tempo está chuvoso, transmitindo alguma tristeza.
Estou no meu quarto, deitado sobre a cama e a pensar no que se passa lá fora.
Decido então ir passear até lá fora.
Passo pela primeira torre. As ruas estão desertas e não se encontra ninguém corajoso o suficiente para sair.
Ao passar a terceira e quarta torre vejo uma mulher que pede. Penso que seja romena, ou algo assim... Pede uma pequena esmola, à porta da igreja, esperando algum auxilio. Ainda que ninguém lhe dê nem os pretos que tem no bolso, ela agradece. Eu fui mais um dos que, passando por ela, a desprezou, a achincalhou, a enganou.
Sigo o meu pequeno passeio pela rua da "Formosura". Enquanto caminho vou cantarolando alguns refrões... Assobio essa melodia bem alto. Subo até à quarta e quinta torre onde, apesar da chuva que cai, admiro o horizonte, lembrando o que ali já aconteceu. Ao longe, mesmo sem a ver, sei que está a minha terra natal! Aquele que eu muitas vezes recordo. Aquela onde cresci!
Viro-me e no sentido oposto sei que está aquela velha Vila que tanta saudade me faz ter. Nela me formei como Homem, cresci, aprofundei a minha vida.
Olho agora as últimas torres da cidade: sexta e sétima.
Entre aquelas torres, ainda que não o pareça, já muita história se fez. Nela falaram Santos, Reis assistiram a missas, catecumunos foram baptizados, entre outras coisas tantas...
Volto para a primeira torre...
No caminho retomo aos meus pensamentos.
Penso em como será possível? Viver numa comunidade e andar sozinho... É incrível...
Contudo, nem tudo é mau... Penso que por vezes a solidão é bem melhor que a presença. Viver vinte e quatro horas sobre vinte e quatro sempre com as mesmas pessoas pode ser cansativo, pode levar a que deixemos de conviver, passando simplesmente a viver. Pode levar a que eu não me importe com o outro, que o deixe de parte levando, assim, ao favoritismo.
Mas, e como há sempre um mas, eu não quero viver assim. Eu vivo com todos de forma igual!
Simplesmente não sou capaz de ir onde não sou convidado, a estar e ser gozado, a amar e ser odiado.
Muita coisa pode mudar em mim, mas isto é algo que não muda! Não deixarei de viver a minha vida. Só não estou para ser motivo de riso, ser substituto, ser o último!
Um sorriso se esboça na minha cara, levando-me a rir... A rir alto no meio da rua!
Recordo o fado da ilustríssima "Rainha" do Fado em que diz: "Sabe-se lá amanhã o que virá, um breve disfarce, uma vida honrada e boa, ninguém sabe quando nasce, para o que nasce a pessoa"
À memória vem-me aquela ilustre foto de quatro amigos... Penso... e concluo... Ainda que cada um ande por seu lado, a amizade é a mesma.




Ismael Sousa

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Em bicos de pé...

No silêncio  da noite alguém vem ao meu encontro.
Não reconheço aquela figura que ao meu encontro vem.
Estou sentado num banco de jardim. Esfrego os olhos para tentar reconhecer quem se aproxima.
O nevoeiro da noite não me deixa reconhecer.
Senta-se a meu lado. Quando vira a cara para me falar, trazendo à luz a sua face, sou capaz de a reconhecer.
Parecia que me estava a ver ao espelho. Só não vestia a mesma roupa!
Uma vez mais a minha consciência veio ter comigo pela calada da noite.
Pediu-me que a acompanhasse.
Seguimos os dois por caminhos desconhecidos por mim. A minha consciência parecia conhecer muito bem aquele caminho sabendo quando virar, quando voltar atrás...
Levou-me pelos caminhos da vida...
Enquanto caminhávamos, ela foi falando: falando de mim...
E eu era incapaz de pronunciar uma única palavra. Quando abria a boca não emitia som.
Falava das minhas acções: repreendia-me e aprovava-me!
Enquanto me falava algo despertou a minha atenção: o seu falar era frio; o seu falar era cheio de amor: frio com amor.
Falava dos meus defeitos, pedindo-me que me emendasse.
De uma forma muito suave disse-me que não podia passar a vida em bicos de pé.
Não compreendi e pela primeira vez interpelei-a. 
Pedi-lhe que me explicasse, que o trocasse por miúdos...
De repente subiu para uma pedra e disse: "Quantas vezes queres estar a cima dos outros? Quantas vezes lutas para te exibires? Quantas vezes o consegues? Em algum momento irás cair. De que te valeu? Nada!"
O meu coração deu uma volta de 180º graus...
Dei uma volta ao pensamento...
Encontrei-me de novo no jardim. Agora sozinho. Só eu e a noite!
Fui para casa. 
Cheguei, abri a bíblia e encontrei o salmo 88!
Li-o e deixei-me a pensar...


Senhor Deus, meu Salvador, *
dia e noite clamo na vossa presença.
Chegue até Vós a minha oração, *
inclinai o ouvido ao meu clamor.
A minha alma está saturada de sofrimento, *
a minha vida chegou às portas da morte.
Sou contado entre os que descem à sepultura, *
sou um homem já sem foças.
Estou abandonado entre os mortos, *
como os caídos que jazem no sepulcro,
de quem já não Vos lembrais *
e que foram sacudidos da vossa mão.
Lançastes-me na cova mais profunda, *
nas trevas do abismo.
Pesa sobre mim a vossa ira, *
todas as vossas ondas caíram sobre mim.
Afastastes de mim os meus conhecidos, *
fizestes-me para eles objecto de horror.
Estou preso e não posso libertar-me, *
meus olhos se apagaram de tanto sofrer.
Clamo a Vós, Senhor, todo o dia, *
estendo para Vós as minhas mãos.
Fareis Vós maravilhas pelos mortos? *
Irão levantar-se os defuntos para Vos louvar?
Haverá no sepulcro quem fale da vossa bondade, *
ou da vossa fidelidade no reino dos mortos?
Serão conhecidas nas trevas as vossas maravilhas, *
na terra do esquecimento a vossa justiça?
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Eu, porém, clamo por Vós, Senhor, *
de manhã, a minha oração sobe à vossa presença.
Porque então me afastais de Vós, Senhor, *
porque escondeis de mim o vosso rosto?
Infeliz de mim que agonizo desde a infância, *
já não posso mais suportar os vossos castigos.
Sobre mim passou a vossa ira *
e os vossos terrores me aniquilaram;
Como vagas me cercaram o dia inteiro *
e todos juntos caíram sobre mim.
Afastastes meus amigos e companheiros, *
só as trevas me fazem companhia.







Ismael Sousa

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Aquela lareira...

Enquanto escrevo algumas palavras, acendo o meu cachimbo. O fumo sobe deixando para trás aquilo que já foi.
Uma vez mais o meu pensamento dispersa-se deixando-me sozinho. Gostaria de, juntamente com ele, viajar e deixar tudo para trás.
Viaja o meu pensamento pelo passado trazendo-me aos olhos lembranças de uma vida.
Recordo a infância, a juventude, a adolescência...
Os Verões passados, as lareiras e salamandras em que me aqueci no Inverno.
Recordo-me sobretudo da lareira da minha velha casa...
Uma simples lareira, de tijolo burro, com fotos, pequenos embelezamentos e dois bancos, um de cada lado.
Nesses bancos sentavam-se os meus pais. Entre eles, sentados no chão e de pernas cruzadas, estava eu e o meu irmão mais velho.
Ali, em frente àquela lareira aprendemos muita coisa.
Aprendemos as catequeses que nos formaram como cristãos; as palavras que não sabíamos pronunciar correctamente e as que viríamos a aprender.
Em frente àquela lareira o meu pai desenhava-nos um índio, fumando o seu cachimbo e largando dele bolas de fumo.
Ah, que perfeição... Para mim não havia melhor desenho que aquele. Às vezes pegava em duas ou três pequenas folhas e desenhava o índio nelas. Na primeira folha desenhava-o sem bolas de fumo. Na segunda já com algumas, e na terceira completava o desenho. Depois, num passe de magia, fazia as bolas de fumo "subirem". Que alegria se esboçava no nosso rosto.
Ali, em frente àquela lareira, desembrulhamos presentes, ouvimos canções e aprendemos a cantá-las.
Ali ouvimos histórias, fábulas, contos, e outras coisas tantas.
Em frente àquela lareira fomos educados, crescendo com valores e com um sentido para a vida!
Naquela lareira pendurávamos a "botinha" pelo Natal, esperando alguma coisa. Colocávamos as cartas ao "Pai-Natal", os Ovos da Páscoa, as fotos de família, os postais que recebíamos no Natal!
Dos meus olhos saem lágrimas de nostalgia. Nostalgia daquele tempo, daquelas lições, daquelas memórias que em mim ficaram.
Já lá vai o tempo em que a família se reunia diante da lareira para estarem algum tempo juntas; para rezarem; ensinarem; serem uma família.
Muitas vezes penetrava com os olhos no fogo daquela lareira esquecendo-me de tudo o que se passava à minha volta.
Poderia chover cá fora, chover "Que Deus a dava" que para mim era-me indiferente, estando eu diante daquela lareira que tantas vezes foi local de refúgio.
Nunca me esquece as alegrias que ali vivi. Os sorrisos que dali saíam, das grandes lições que lá aprendi.
Recordo alguns poemas, que mais tarde na presença dos "cinco", ali se recitavam. Recordo o gosto que os meus pais me incutiam, tanto pela música, pela escrita, leitura e pela arte.
Recordo ainda as vezes que ao colo de minha mãe ou de meu pai nós adormecíamos...



Ismael Sousa

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sabe Deus...

Sabe Deus que eu quis, um dia ser feliz, viver um sonho!
Poderá o homem viver sem Deus? Poderá o homem ser feliz sem cinhecer a Deus?
Todas estas questões estão na minha cabeça, todas estas questões ocupam a minha alma. Como poderá o homem, que não conhece a Deus, acordar todas as manhãs e sentir-se alegre, encontrar sentido para a vida?
Quero crer que todo o homem, na sua vida, já encontrou a Deus, mas tem medo de assumir isso perante esta sociedade que descrimina, que põe de parte todo o homem que ama a Deus! Todo aquele que se diz crente, todo aquele que é verdadeiramente cristão, todo aquele que faz da sua vida um louvor perene a Deus, que vive com rectidão, que não odeia o irmão e que é capaz de dar "a outra face".
Estou sentado à lareira, onde o lume brilha, me aquece e me faz pensar!
Toca profundamente o meu coração e me faz derramar algumas lágrimas!
Sinto-me impotente perante esta sociedade que comercializa tudo, que enche o pensamento de todos! Não dá hipótese para se pensar em Deus, para O acolher no coração, para O escutar, falar com Ele, senti-l'O.
Lá fora a chuva cai, o vento sopra, as árvores dançam de um lado para o outro, as folhas voam ao ritmo do vento! Em tudo isto vejo a Deus: a chuva que rega os montes, os campos, enche os rios; o vento faz cair as folhas para a árvore se renovar, testa as suas raízes, faz cair os ramos podres para não apodrecer mais a árvore.
Como pode o homem não ver Deus, dizer que ele está distante do Mundo, distante da actualidade. Não pode ser mais que uma mentira: todos os dias nos dá santos; todos os dia nos dá mais um dia para viver; mais uma vez nos enche a vida de alegria; mais uma vez, mais uma vez... Diariamente... Não só ontem, não só hoje, não só amanha, mas sim toda a nossa passagem pela terra!
Este Deus que a sociedade oprime é um Deus de amor, um Deus de bondade, que ama a todos por igual sem fazer excepções!
A chama da minha lareira já se apagou restando só as brasas. O relógio da torre bate a meia noite, dando sinal a todos os que o conseguem ouvir a informação que está na hora de repousar.
Pouso o cachimbo que à muito se apagou e deixou de botar fumo.
Subo as escadas para repousar, tendo a certesa de que Deus me acompanhará nesta noite, que enviará os seus anjos para velarem a minha noite!
Contudo no meu pensamento ainda resta uma pergunta: que poderei eu fazer? Que actitude tenho eu que tomar para que todos conheçam o Amor?
Mostra-me a tua fé sem obras que eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras!




Ismael Sousa