domingo, 14 de novembro de 2010

Fornos de Algodres, Vila de Lembranças.

Hoje, enquanto Te adorava, muitos pensamentos me vieram à cabeça.
Questiono porque me terás Tu chamado, que despertou em Ti a vontade de me chamar.
Sei que não escolhes os preparados, mas preparas os escolhidos!
Todos os dias agradeço por me teres escolhido, por me fazeres fazer parte deste Teu grupo!
Outro pensamento que me veio à cabeça foi aquela pacata vila!
Durante quatro anos ali vivi, ali me formei como homem, ali cresci, conquistei mundos e perdi outros mundos. Criei amizades, criei lembranças.
Por onde quer que olhe, tenho lembranças.
Recordo com saudade esses tempos, em que a felicidade era constante!
Como gostaria eu de reunir todos os meus amigos de lá num jantar e juntamente com eles recordar velhas histórias.
Histórias de alegria, tristeza, riso e choro!
Poderia eu esquecer-me daquela pacata vila? Não, seria totalmente impossível, pois as memórias (as grandes memórias) são lá! Para esquecer aquela vila teria de esquecer oito anos da minha vida!

Vila de Fornos de Algodres

Lago do Seminário Menor de São José, Fornos de Algodres

Ismael Sousa

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Irá o sol raiar?

Acendo um cigarro... Não é um cigarro qualquer. É um pensativo cigarro.
Olho o seu fumo que sobe pelo ar, adquirindo formas belas, formas desconhecidas, demonstrando a sua liberdade.
Do alto da minha janela olho o jardim público.
Os seus bancos estão todos cheios. Alguns cheios de solidão, outros cheios de saudade, outros ainda com pobres mendigos que se cobrem com cobertores de papel, e a sua almofada é a bela de uma mão.
Não consigo compreender como pode o ser humano chegar a este ponto. Não compreendo como o ser humano consegue assistir a isto. Não compreendo como a sociedade o permite.
Acabo o cigarro e penso durante alguns segundos. Acho que ainda me resta algo do jantar, e que menos um cobertor não me fará falta.
Preparo tudo e desço as escadas... A meio do caminho lembro-me que não bastará sair à rua com uma refeição e um cobertor.
Volto a subir as escadas, ponho um prato na mesa, e ponho a aquecer a refeição.
Saio para a rua: está um frio de matar. Apresso-me a ir ter com o mendigo que faz do céu o tecto de sua casa, do banco do jardim a sua cama...
Durante o caminho, penso em mil formas de o abordar. Nenhuma me parece perfeita. Sento-me a seus pés, e abordo-o.
A sua primeira reacção foi de susto. Pensou ser algum policia ou um drogado qualquer. De imediato me pede desculpa pela sua reacção.
Convido-o a entrar na minha casa. Primeiramente recusou. Mas não foi preciso voltar a pedir, pois estava com necessidade disso.
Acompanho-o até à minha casa, onde o dirijo para a casa de banho.
Ofereço-lhe um banho. Nunca vi os olhos de alguém brilharem por um banho quente, como os dele brilharam.
Deixo tudo à sua disposição para tomar banho, vestir roupa lavada, fazer a barba e a sua higiene pessoal.
Indico-lhe a sala de jantar para ele ir la ter. Recusa-se a comer na sala de jantar, dizendo que a cozinha lhe basta.
Contudo, não o deixei levar a sua avante, e disse-lhe que o esperava na sala de jantar.
Enquanto tomava banho, preparei o quarto de hóspedes, uma refeição em condições, pois vi que os meus "restos" não seriam suficientes para matar a sua fome.
Pouco tempo se demorou e quando dei conta já ele estava junto a mim.
Pedi-lhe para se sentar e a seu lado sentei-me com ele.
Não precisei de dizer nada. Começou a falar da sua vida, do porquê de andar nas ruas, etc.
As horas passaram, e aquele homem falou do que ia dentro do seu coração.
Não fui capaz de articular uma palavra. Dos meus olhos jorravam lágrimas e mais lágrimas. Nunca ouvira uma vida assim! Nunca ninguém se abrira assim comigo, sem me conhecer.
A refeição já a tinha acabado há umas duas horas, mas continuou a falar.
Depois de se abrir, levantou-se e agradeceu tudo. Pedi-lhe para ficar a dormir em minha casa, ao que ele se negou fortemente. Insisti. Mas ele não deixou. Acompanhei-o à porta, onde me despedi dele com um abraço.
Voltou para o seu banco de jardim, cobrindo-se novamente com o cobertor de cartão.
O meu coração apertou-se de dor, de não conseguir fazer mais nada por aquele homem.
Volto para a janela, onde fumo outro cigarro.
Tenho de ajudar aquele homem. Tenho de o fazer.
Atiro com o cigarro, pego em dois cobertores e saio de casa.
O pobre mendigo já dormia, e nos seus sonhos sonharia com um futuro melhor, pois sorria!
Cobri-o, tapei-o bem, para que o frio não o incomodasse.
No banco a seguir sentei-me, envolvido no cobertor e velei o seu sono.
Na minha cabeça só permanecia o pensamento: Como te posso ajudar?

Ismael Sousa

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Douta Partitura

Sinto um arrepio nas costas. Um arrepio gélido.
Voltou a chuva e com ela o vento e o frio.
Não percebo porque não aceitamos a chuva e o frio como aceitamos o sol e o calor. Bem, na verdade, nunca aceitamos algo que nos incomoda, e a chuva e o frio incomodam.
Sento-me no sofá, junto à janela a olhar o Outono lá fora. As árvores exprimem tons castanhos, embelezando-se e despindo-se. Durante três meses irão descansar, despir-se da sua beleza, para assim mostrarem e descerem à sua pequenez.
Estes pensamentos invadem-me a cabeça e adormeço a pensar neles...
Abro os olhos e encontro-me de pé no meio do quarto. Estranho, serei eu sonâmbulo?
Olho o quarto e no sofá vejo um vulto. Tento avançar para o vulto mas não consigo: algo me impede.
Esfrego os olhos para tentar reconhecer essa pessoa. Vejo-me a mim próprio. Nas mãos tenho um livro. Reparo nas minhas mãos. Estão velhas. A pele queimada pelo tempo.
o meu rosto não é mais jovem e agora as rugas enchem a minha face. O cabelo já não é branco. Tornou-se grisalho.
Na ponta do nariz seguro uns óculos para conseguir ler: a minha visão também envelheceu.
A capa preta cobre o meu corpo,escondendo a velhice que por ele passou.
Volto a olhar o quarto. Este também mudou. O espaço não é o mesmo, as estantes encheram-se de livros, a secretária de papeis e nas paredes surgiram vários quadro: fotos, acontecimentos, uma ou outra obra de arte. Ressalta na parede um grande crucifixo.
Esforço-me para tentar ler o título do livro que se encontra nas minhas "velhas" mãos. Não consigo perceber o seu título. Contudo reconheço aquela capa. Apesar de gasta, velha e já com algumas manchas, lembro-me perfeitamente daquele livro. É um livro que me tem acompanhado, parecendo-me que me continuará a acompanhar.
Enquanto ocupo a mente com estes pensamentos, o meu "velho" eu fecha o livro, pousa os óculos sobre ele e olha o horizonte. De súbdito, fixa o seu olhar no crucifixo. Dele parte para as fotos e quadros que estão colocados por ordem cronológica. Começa por olhar as velhas fotos da nossa infância...
Até a algumas recordo-me de tudo. Outras são-me totalmente desconhecidas.
No rosto do meu "velho" eu esboça-se um sorriso. Os seus olhos enchem-se de água, e as lágrimas começaram a jorrar. Jorram lentamente, uma depois da outra, sem grande pressa.
Consigo ler nos meus "velhos" olhos a alegria que sente em recordar aquilo tudo.
Reparo agora, que numa mesa a Bíblia está aberta e a seu lado encontra-se uma vela acesa. A sua chama treme de um lado para o outro, aumentando e diminuindo. Também assim tem sido a minha vida, com altos e baixos. Terá continuado assim? Possivelmente que sim.
Depois de observadas todas as fotos, o "velho" eu fechou os olhos e pegou nos óculos, batendo ligeiramente com eles na capa do livro. Marca um ritmo... um compasso...
Estará ele a ouvir algo no seu pensamento?...
Subitamente começo a ouvir, baixinho, uns sons. Esses sons vão aumentando, tornando-se música. Identifico-a facilmente: "Lago dos Cisnes".
Várias vezes estudei estas partituras. Várias vezes as levei comigo.
O "velho" eu levantou-se. Pousando o livro junto da Bíblia, dirige-se para o piano. Nele coloca umas partituras. Talvez vá tocar o "Lago dos Cisnes", ou uma outra peça.
Uma melodia suave sai do velho piano. Ela enche todo o espaço. É algo fabuloso.
Gostaria de guardar aquela melodia para sempre na minha alma e mente.
Tento ler o nome daquela peça. A minha alma espanta-se com o nome: "Partituras de um Sonho".
Procuro, com os olhos, o seu autor: "Volpe".
Não conheço esse autor, esse compositor. De ele nunca ouvi falar, nem nenhuma música dele ouvi.
Fixo o nome do compositor: "Volpe"...
Volta o "velho" eu para o sofá, onde fixa novamente o infinito.
Fixo também eu o infinito. o meu pensamento invade-se de pensamento. Como terá sido o seu passado, o meu futuro? Estarei e viverei também aquilo? Que sentimentos forraram a sua vida?
Fecha o "velho" eu os olhos e adormece a contemplar o infinito.
Acordo do sono, relembrando todo aquele Sonho.
Penso no que pensaria o "velho" eu, mas sei que terei de esperar e aí saberei as respostas!

Ismael Sousa

domingo, 7 de novembro de 2010

Semana dos Seminários

Bem, chegou ao fim mais um fim-de-semana.
Contudo, para nós cristãos começou mais uma semana.
Assim, esta semana é especial. É a Semana dos Seminários.
Esta semana é uma boa oportunidade para rezar pelos Seminários, Seminaristas e seus formadores.




Deixo-vos também a oração para que todos possam rezar pelos Seminaristas!

Jesus Cristo, Bom Pastor
que dás a vida pelas Tuas ovelhas.
Tu és o Filho muito amado do Pai,
Tu és o nosso Mestre e Salvador.
Faz dos nossos seminários
Comunidades de discípulos,
Sementeiras de Amor,
de serviço e de entrega radical pelo Teu Reino;
sinais de esperança de um futuro de vida verdadeira,
em abundância para todos.
Fortalece e ilumina
no discernimento vocacional os nossos seminaristas;
confirma nos dons do Espírito Santo os seus formadores;
enche de generosidade e espírito de serviço
os auxiliares que com eles trabalham.
Recompensa e abençoa os benfeitores,
que com a oração e partilha de bens, zelam pela missão;
ampara o nosso Bispo e os nossos párocos,
para que sejam sempre fiéis ao dom do Sacerdócio;
desperta a generosidade e a coragem dos nossos jovens
para Te seguirem e concede às nossas famílias o dom de
Te proporem como caminho, verdade e vida...
Nós Te pedimos por intercessão e Nossa Senhora,
Tua e nossa mãe...

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Espero que rezem esta oração por todos nós!

Ismael Sousa

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ainda que o coração fale mais alto!

Pode haver mil razões, mil palavras, mil actos... mas em o coração falando mais alto, nada há a fazer.
Não conseguimos, por mais esforços que se façam, conseguir calar a voz do coração.
Contudo, temos de compreender o coração.
Acordei, num dia de chuva, com o estado de espírito em baixo. Não conseguia compreender qual a razão, ainda que tudo tivesse bem. Parei e decidi ouvir o coração. Falava baixo e eu não o compreendia. Fiz silêncio na minha mente e coloquei toda a minha atenção no que dizia o coração. Repetidamente dizia-me: "Deixa-me partir... Deixa-me partir"
Não compreendi as suas palavras e deixei de o escutar.
Lutei todos os dias contra a minha mente que não parava de pensar naquelas palavras. Jurava para mim mesmo deixar de pensar e sentir.
Mas não fui capaz.
Amei tanto que não era capaz de te deixar partir. Criei medo dentro de mim próprio. Medo de perder os que amo. Medo de ser substituído, medo de deixar partir.
Nesse mesmo dia fui visitar-te. Foi tanta a minha dor. Tanto o sentimento de saudade.
À noite, quando o silêncio da noite veio e eu fiquei só comigo mesmo, comecei a compreender.
Hoje sou capaz de te deixar partir ainda que isso me traga muita dor. Sei que não me queres assim.
Ouvi a voz da razão e a voz do coração.
Tanta vez disse para mim próprio: "Ainda que o coração fale mais alto, e a razão me impeça de continuar, não te deixarei partir!"
Hoje partes... mas nunca te esquecerei.

Ismael Sousa